"Pecado é provocar desejo e depois renunciar."
(Renato Russo/Marisa Monte)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Sexta com chuva....

Pensei ... Como me presentear numa sexta-feira nublada, premeada com uma conjuntivite, irritante? Lembrei-me de uma crônica do Miguel Falabella. Gostoso de se ler, como tudo que escreve. Um presente para mim e pra quem gosta de boa leitura. Boa sexta-feira de sol e de chuva!


"No teatro, só sobrevivem aqueles que conseguem suportar
o tal olhar que o abismo lança de volta"

Sentado num canto da imensa sala de ensaios eu, como o narrador de Isherwood, sou uma câmera. Diogo Vilela está cantando uma canção enquanto vai-se transformando em Zazá, um renomado travesti da Riviera, seu personagem em “A Gaiola das Loucas”. É fascinante observar um ator no exercício da criação, eu penso, enquanto ele evolui pela sala, seguindo os passos de seu número. Não sei por que, mas me vem à mente um pensamento de Nietzsche sobre o perigo de se olhar para o abismo, porque ele termina olhando de volta. No teatro, só sobrevivem aqueles que conseguem suportar o tal olhar que o abismo lança de volta, eu penso, porque é essa a sensação que temos ao encarar um novo texto, uma nova história, uma nova vida. Começar do zero, engatinhar, descobrir um caminho que é só nosso e, principalmente, aprender a respirar como nos pede o autor. Começar outra vez, é isso. Atravessar o túnel em busca da luz. O fato é que, por essas e outras, a mirada do abismo volta e meia nos ronda. Agora, a canção já está no meio e eu me preparo para entrar em cena, enquanto a chuva castiga sem piedade a São Paulo que também se prepara para o Carnaval.

A chuva cai sobre o telhado do galpão e cria um fundo sonoro constante e monótono. A câmera que eu sou, talvez operada por algum mecanismo da memória, resolve buscar um plano de algum momento do passado e eu vejo o rosto de minha mãe num reflexo do vidro, que surge entre a lente que são meus olhos e a cena da peça que avança – agora, Diogo aplica um batom vermelho e a cor faz mamãe sorrir, porque para a família de papai, mais burguesa e, de certa forma, conservadora, mamãe era conhecida como “vermelha”. A gente sabe que está envelhecendo quando ainda usa termos como esse, eu penso, mas enfim... Mamãe esteve presa por algumas horas durante a revolução, porque a Faculdade de Filosofia da época fervia de ideias e vários professores foram denunciados. Isso, é claro, contribuiu para aumentar sua fama e o adjetivo era dito de forma carinhosa e galhofeira nas reuniões da família de papai. Ela não ligava e convivia com as tias professoras primárias e os tios militares com uma harmonia e uma felicidade que foram um grande legado, eu penso hoje em dia. Mamãe era uma mulher de esquerda, é claro, mas de uma esquerda encharcada de humanidade, que realmente honrava seu princípio básico.

Transitava como ninguém por Sartre e Marcuse e sentava-se à noite, ao lado da família, para assistir aos folhetins de Janete Clair. Aliás, lembrei agora de um pensamento de Herbert Marcuse que tem a ver com o movimento dessa câmera que sou eu, no ensaio à tarde: o tempo não cura nada, mas tira o incurável do foco central. O agudo final da canção de Diogo me traz de volta e eu ainda vejo mamãe desaparecer como uma névoa que se dissipa soprada pelo vento. Sinto saudades dela, gostaria de ouvir sua voz outra vez. Alguém me chama a atenção. Eu preciso entrar em cena. Avanço na direção de Diogo e tropeço na primeira fala. Peço desculpas e recomeço. É a tal história. O abismo sempre olha de volta. Sempre. Lá fora, continua a chover.

Miguel Falabella é ator, diretor, dramaturgo e autor de novelas.

Fonte:http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A História do Pênis

Show de bola nessa produção francesa. Vale assistir!

A mulher e a Logomarca

A mulher e a logomarca

Um marido está em casa assistindo a um jogo de futebol, quando sua mulher sai de casa e volta logo em seguida e o interroga?

- Querido, você pode consertar meu carro? Ele parou de funcionar logo que saí da garagem...

Ele olhou para ela e respondeu com raiva:

- Consertar seu carro? Você tá vendo a logomarca da Fiat na minha testa?

A esposa desiste de sair e vai à geladeira para tomar água e encontra a porta quebrada e volta pra ele e pergunta:

- Então, você pode consertar a porta da geladeira? Ela não está fechando direito...

E ele respondeu:

-Consertar a porta da geladeira? Você tá vendo a logomarca da Brastemp na minha testa?

-Tudo bem, ela disse.

E vai acender a lâmpada da varanda e lembra que está queimada, volta ao marido e pergunta:

- Então você pode pelo menos trocar a lâmpada da porta da frente? Ela está queimada há semanas.

E o marido:

- Trocar a lâmpada da porta da frente? Você está vendo a logomarca da Philips na minha testa? Eu não agüento mais você! Vou para o bar!!!

Então ele foi para o bar e bebeu por algumas horas. Ele começou a se sentir culpado pela forma como tratou sua esposa e decidiu voltar para casa e ajudá-la.

Quando ele chegou em casa viu que o carro da sua mulher já estava na garagem.

Ao entrar na casa, ele viu que a luz da porta de entrada já estava trocada, foi pegar uma cerveja e percebeu que a porta da geladeira havia sido consertada.

Querida - ele perguntou:

- Como todas essas coisas foram consertadas?

Ela disse:

- Bem, quando você saiu, eu sentei lá fora e chorei. Então um jovem muito simpático me perguntou o que estava errado e eu lhe contei.

Ele se ofereceu para consertar tudo, e o que eu tinha a fazer era escolher entre ir para a cama com ele ou fazer um bolo.

O marido disse:

- Então, que tipo de bolo você fez para ele, meu amor?

Ela respondeu:

- Aloooôôôôô!!!

Você tá vendo a logomarca da "Dona Benta" na minha testa?

MORAL DA HISTÓRIA:

MARCA QUE NÃO DÁ ASSISTÊNCIA, ABRE ESPAÇO PARA A CONCORRÊNCIA !!!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Zilda Arns: Nobel póstumo.


Zilda Arns, idealizadora e administradora da Pastoral da Criança, foi indicada para o Prêmio Nobel da Paz em 2001, 2002 e 2003. Não ganhou. É improvável que o leitor lembre-se dos ganhadores deste prêmio naqueles anos, afora o último, dado a um falcão da guerra: Barak Obama. Zilda morreu agora no Haiti e foi a pior perda do cataclismo entre tantas dezenas de mortos, ilustres ou não, conhecidos ou anônimos, sorvidos pela tragédia de poucos dias atrás. Perda não do Brasil, mas da humanidade. Fazendo uma análise dos números da Pastoral da Criança, a catarinense Zilda foi a maior mulher brasileira do Século XX, e, por sua trajetória, uma daquelas que ombreia com as mais importantes e conhecidas mulheres líderes mundiais. Os números que vem a lume nestes dias impressionam pelo gigantismo. No dizer da própria Zilda, medidas simples e baratas, como ferver a água a ser dada para as crianças, lavar as mãos, usar soro doméstico, alfabetizar as mães e ensinar-lhes um ofício, transformou os números da mortalidade infantil. E levou a Pastoral da Criança do Brasil a cruzar fronteiras para outros 27 países latinos e africanos. O teste inicial destas propostas de Zilda, há cerca de trinta anos, fez cair a mortalidade infantil no município-cobaia de 127 óbitos por mil, para 20 por mil. Não havia dúvida: eram medidas inovadoras no trato da mortalidade infantil entre as populações mais carentes e que davam resultados para lá das melhores expectativas. E os números cresceram depressa. Hoje são 1,8 milhões de crianças atendidas do zero aos seis anos de idade. Por 260 mil voluntárias em 42 mil comunidades pobres de mais de 4 mil municípios brasileiros. Afora as quase cem mil gestantes que buscam informações e auxílio. Os números da mortalidade infantil desabaram no Brasil, graças a Zilda e seus ensinamentos. Mais, em um país de corruptos, nunca se ouviu uma informação desabonatória a este trabalho gigantesco. Pelo simples fato de as 260 mil voluntárias, moradoras das regiões que a Pastoral atende, trabalharem de graça. Questionadas sobre nada ganharem afirmam: realizamos-nos com o reconhecimento das pessoas. Obra e resultado deste porte levam a vida e a morte para outra dimensão. E é obrigação do Governo brasileiro e da própria Pastoral propor e defender o nome de Zilda para um Nobel de reconhecimento póstumo.


ivarhartmann@terra.com.br
*Ivar Hartmann é promotor púbico aposentado e colunista do Jornal NH - Gruposinos, Novo Hamburgo, RS